
Em meio à temível escuridão do Inverno, a Deusa voltou Seus olhos para a Terra. Avistando a calma, inerte e peculiar beleza que repousava nas árvores sem folhas, na neve que cobria o solo e em Suas criaturas, agora reunidas em suas cavernas e casas para fugir do frio, resolveu descer ao Mundo para dar fim ao implacável período mortal que se estendia sobre todas as formas viventes.
Embora soubesse que o florescer e frutificar da Terra, bem como a gestação da nova Criança, haviam Lhe deixado cansada e que o tempo de escuridão fosse, então, mais do que necessário, a Senhora sabia que, acima de tudo, os Ciclos da Vida eram tão belos e poderosos quanto os Ciclos da Morte, e começavam a agitar-se nas profundezas do solo, lutando contra o inverno gelado para renascer.
Ela sabia que era momento de retirar, finalmente, Seu manto branco que se estendia pelas florestas e vales, abrindo espaço para que estes pudessem tornar-se novamente verdes, pulsantes com energia vivente.
A noite era a mais longa e mais escura que já havia se visto.
Movimentando-se com dificuldade devido aos avançados estágios de Sua gravidez, a Mãe de todas as coisas adentrou a floresta agora negra, buscando Aquele que comandava esta época do ano.
Calmo, silencioso e taciturno, o Rei Azevinho esperava-A em meio às arvores nuas.
Sua coroa de viçosas folhas verdes e os rubros frutos que a cobriam pareciam um tesouro em meio aos galhos secos espalhados por toda a parte, como se uma estranha magia os tivesse conferido o poder de sobreviver a estes difíceis tempos.
Seus olhos eram firmes,
Seus lábios cerrados pareciam esboçar um sorriso incompreensível, resistente, único.
A Portadora da Vida sabia que seria difícil convencê-Lo a retirar-se.
No entanto, ao sentir a Criança da Vida mover-se em Seu ventre, Ela tinha certeza: era chegado o momento.
Após uma breve saudação carregada de poder, a Deusa voltou Seus olhos para o Oeste, mostrando ao Deus Azevinho a direção que Ele deveria tomar.
Não se podia ver nada além de um caminho tortuoso que terminava em escuridão.
“Por que eu deveria ir?”, perguntou Ele
.
“Os tempos devem mudar”, respondeu a Deusa,
“e aqueles que um dia governaram devem ceder lugar à nova vida, para que o equilíbrio no mundo seja restabelecido.
Você sabe disso tão bem quanto Eu.”
O Deus contemplou a calma da floresta, num gesto que pareceu durar tanto quanto a nota de uma harpa ecoando em uma sala vazia.
“Eu não posso ir”, disse Ele,
“não agora.
Você, Senhora, que vê além da tristeza, sabe que este é também um belo tempo. Repare no suave amor com que o gelo beija a Terra, e na esperança de Minhas verdes folhas, que mostram Minha soberania, exercida com direito e propriedade”.

A Deusa sorriu.
Seus lábios pareciam compreender o Rei do Gelo, mas demonstravam uma sabedoria ainda maior do que a dele.
Ela disse:
“Belas são as Suas palavras, Meu filho e amigo.
No entanto, não se esqueça:
a Terra deixa-se beijar, mas pode envolvê-Lo no mais mortal e eterno dos abraços. E o que será de Suas verdes folhas quando a escuridão eterna roubar delas o brilho que as sustenta?
Sem a ajuda da Criança que se prepara para tomar o Seu lugar, você não terá mais coroa, nem trono.”
“Criança!
Minha Amada,
Minha Mãe,
Minha Senhora!
Olhe para Mim;
veja a sabedoria do tempo estampada em Minha Face, em Meus olhos, em Minha barba!
Por que Eu, que sou o Senhor do Conhecimento, devo ser substituído por uma Criança?” – disse o Rei azevinho, gargalhando
.
“Que poder pode tão pequena e inocente criatura ter, que seja maior do que o Meu?”
Ela quase deixou levar-se pelas palavras do Senhor da Morte, mas sabia:
Ele podia ser ousado o bastante para manipular palavras e tentar convencer a Ela,
que O havia gerado; mas não havia palavras que pudessem convencer a Senhora de Todos os Ciclos a agir contra Sua própria natureza.
Ela respondeu-Lhe da maneira mais coerente, e, portanto, mais verdadeira:
“O Filho que espero pode ser agora pequeno, mas tem tanto poder quanto Você próprio,
uma vez que ambos foram gerados em Meu condescendente ventre, e conhecem igualmente Meus Mistérios.
Nós sabemos:
Ele crescerá.
Ele o faz até mesmo enquanto dialogamos, e torna-se cada vez mais próxima a hora de Seu nascimento.
E à medida em que crescer,
terá cada vez maior poder para degelar esta neve sob nossos pés.
E então, eu vestirei Meu manto de beleza para saudá-Lo, para amá-Lo, de modo a restituir a vida e abundância a todas as Minhas Criaturas.”
“Eu não o vejo crescer”, disse o Rei do Inverno, estendendo Suas mãos para recolher alguns flocos de neve que caíam dos céus.
“Vejo apenas neve, gelo, e frio. Vejo o Inverno.”
“Você mesmo disse que vejo além da tristeza.
Pois bem, é verdade.
Meus olhos vêem além da neve, e meus ouvidos escutam as árvores sussurrarem enquanto seus galhos se tocam.
Preste atenção, Filho, repare no som dos carvalhos brotando sob a neve, tão lentamente, tão suavemente!”
A Deusa apontou para baixo, e de Suas mãos pareceram surgir pequenas fagulhas, que desceram até o solo, abrindo espaço na neve e mostrando ao Deus os pequenos brotos quase invisíveis que cresciam sob o gelo
.
“Tudo vai, e tudo vem.
Tudo morre, tudo renasce.
Enquanto você reina, a vida lentamente caminha em sua direção, clamando por espaço.
Até mesmo Eu, que sou a Senhora de Todas as Coisas,
deixo a vida preencher-Me!”
E colocando as mãos em Seu ventre pleno, a Deusa convenceu, enfim, o Rei do Inverno de que Morte e Vida pareciam ser opostas, mas eram irmãs, filhas Dela mesma, Senhora daquilo que é, foi e ainda será.
“Receba comigo a Criança da Promessa, e recolha-se, Sábio Azevinho,
pois chegará também o Seu momento de retornar.”
A Deusa deu alguns passos em direção ao Leste, e assim permaneceu por alguns instantes, de modo que o Rei Azevinho via apenas Suas costas.
Subitamente, um clarão surgiu em frente à Deusa, que cantava.
A Luz era tão forte que Ele teve que cerrar os olhos.
A Senhora então voltou-se para Ele.
Nos braços da Grande Mãe, havia um pequeno bebê, de onde vinha o brilho e a luz da Vida.
Ele era tão belo, que fez o Rei Azevinho sorrir.
“A Criança da Promessa retornou”, disse a Mãe dos Deuses.
“Vamos saudá-la, pois agora temos a certeza de que a vida se derramará novamente sobre a Terra.
O Rei Carvalho deve agora governar.
E você, Rei Azevinho, deve ir agora.
Nós o agradecemos por ter protegido o mundo durante este período de escuridão, e desejamos harmonia em sua jornada rumo às terras além do Oeste.
Nós cuidaremos de Seu Reino, e aguardaremos também o Seu retorno,
quando for o momento do Rei Carvalho despedir-se para que a vida continue,
assim como Você agora o faz.
Tudo o que vai deve um dia retornar.
Lembremo-nos sempre desta máxima sagrada.”
Com as palavras e as bênçãos da Senhora, o Rei Azevinho entregou sua coroa à floresta e partiu em direção aos caminhos do Oeste, de onde, como proferiu a Deusa,
Ele um dia retornará.
Mas isso é parte de outra história…
por enquanto, saudemos o Rei Carvalho e abracemos, com vontade, a nova vida.
Feliz Yule!
O mito do Rei Carvalho e do Rei azevinho é um dos mais tradicionais nas épocas de Litha e Yule.
Enquanto em Litha, o Rei Carvalho é desafiado pelo Rei Azevinho, que chega para governar a metade fria e escura do ano, o contrário ocorre em Yule.
A noite mais longa do ano nos lembra que a Luz retorna ao mundo.
Os dias serão cada vez mais longos, e em breve o Sol voltará a nos aquecer e trazer a vida de volta à Terra.
Assim como o Rei Azevinho finalmente se convence de que a Criança da Promessa deve governar, deixemo-nos inspirar por este mito e celebrar nossa Criança interior.
Vamos celebrar a vida, a esperança e a promessa de dias mais quentes, melhores, com mais amor e beleza.
Sejam abençoados!
Lullu Saille é Alta Sacerdotisa da Tradição Diânica Nemorensis, atualmente mora na Alemanha com seu marido e sua filha a Princesa Sophie.
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